Os pintores do Brasil Holandês

É importante sempre ressaltar que nem todo texto é escrito. As imagens também são importantíssimas, e mais ainda para estudar épocas das quais pouco se dispõe em escrita e arte. Contrapõe-se então o texto de Clarival do Prado às obras de Albert Eckhout, pintor holandês que veio em expedição colonizadora a fim de fazer o que poucos se dispunham: Retratar o que faziam os brasileiros.

"Uma coisa é saber da história segundo historiadores, e outra é vê-la através dos olhos que a viram.
Por mais verdadeiro que possa parecer um documento, nada se assemelha à pintura feita por quem apenas desejou deixar para o sempre a imagem porventura contemplada".

Frans Post. Disponível em: https://i.redd.it/dkfn9hmv1zwz.jpg


Albert Eckhout
"Do lado de cá, o indígena brasileiro vivia em seu comportamento neolítico, gastando pintura corporal à base de jenipapo e urucum, cuidando de sua cerâmica, de sua cestaria e sua arquitetura toda elaborada com o reino vegetal, cuidando de sua subsistência através da sabedoria de caça, pesca e medicina. Enfim, o verdadeiro homem-natureza, tão livre e belo quanto imaginara Rousseau e tão fácil e lábil de ser apresado quanto calculara seu conquistador".

O excerto reflete justamente o mito da cordialidade do homem brasileiro de Sergio Buarque, excluíndo totalmente a noção de resistência. A repressão não existiria sem resistência, e se ela não fosse necessária aos olhos de quem a faz, por que estes se preocupariam em registrá-la? Muito mais que conquistados, os índios (mais expressivos na escultura do que na pintura) foram absorvidos e colocados a serviço da nova sociedade que se implementou, e quem o fez sequer se preocupou em retratá-los, considerando tal feito muito indigno.

Albert Eckhout
Foi muito graças à ação dos pintores holandeses, como  Frans PostAlbert Eckhout e Zacharias Wagener que se pôde ver muito da nossa sociedade primitiva e as tais "bases" sobre as quais ela foi construída e sobre as quais muito se discute por cima. Os holandeses também não as discutiram, mas se preocuparam em resgatar o dinheiro investido aqui com a invasão. No entanto, puseram-se também a buscar retratar e repaginar a singularidade do povo com quem pela primeira vez estavam diretamente lidando, sobretudo durante o período nassoviano, governo do Príncipe João Maurício de Nassau, um conciliador.
A pedido de Nassau, Post e Eckhout, mestres brilhantes à época, eram contratados da Companhia das Índias Ocidentais, a empresa responsável pelo projeto colonizador do Brasil. Zacharias, por sua vez, era um soldado, um agente da força empreendida nesse processo. Nenhum deles era católico, o que lhes permitiu pintar sem a preocupação com o pudor que poderia se exigir a partir de Roma. 

Quando os conquistadores representantes dos bancários da Europa puseram os olhos aqui, no entanto, eles não deixaram de expressar a curiosidade do conquistador sobre relações exibidas com naturalidade naquelas sociedades marcadas pela tensão de um caldeirão social e cultural que, capitaneado a partir da Europa, nunca deixou de ser mexido, e que hoje são motivo de vergonha. No entanto, foi muito graças a esse verniz cultural em cores diferentes que o Brasil Holandês recebeu a marca, comum no Futuro do Pretérito da História, de "teria sido melhor assim", e que Nassau era uma espécie de príncipe renascentista dos trópicos, e que cenas como as retratadas não se repetiriam.


(Zacharias Wagener. Disponível em: http://multirio.rio.rj.gov.br/images/historia_do_brasil/M1-cap3/africanos_Zacharias_t.jpg)

Obs: ("Capítulo final da novela")
Mas como os holandeses foram expulsos de Pernambuco? Os senhores de engenho, endividados com a administração holandesa e chefiados por André de Negreiros, juntaram-se aos índios potiguares, aliados históricos dos portugueses sob o comando de Antônio Poti e de negros tanto libertos quanto escravos sob a liderança de Henrique Dias, um ex-escravo cujo braço havia sido amputado. Do outro lado, o mulato Domingos Calabar ficou célebre por ajudar os holandeses e "trair a causa", assim como chefes de tribos aliadas dos holandeses.
Os holandeses foram para a Ilha de Manhattan, onde fundaram um dos maiores centros financeiros do mundo. Ficando aqui, os caciques rivais foram torturados e enforcados, assim como Calabar, que virou música de Chico Buarque. Negreiros, cujo sobrenome era praticamente um cartão profissional, se tornou Governador de Pernambuco e Angola, enquanto Antônio Poti ganhou um brasão, 40 mi-réis e uma comenda da Ordem de Cristo. Por último, Henrique Dias foi nomeado o "governador dos crioulos, negros e mulatos", cargo cujas atribuições até hoje pouco se sabe.

A arte é um belo caminho para se compreender o que foi o Brasil  Holandês. Para saber um pouco mais sobre a História da Arte holandesa no Brasil, acessem:
https://www.historiadasartes.com/nobrasil/arte-no-seculo-17/arte-holandesa/

Além dos nossos, vale a pena refletir um pouco também sobre os problemas sociais e raciais que a Europa enfrenta. Por que é para muitos deles tão estranho recebê-los na pirâmide de suas casas, e por que isso tem despertado reações tão extremas, ressuscitando movimentos ultranacionalistas?

Abraço e bom final de semana.

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